Saúde Mental do Trabalhador
Dados sobre adoecimento no setor bancário alertam para os impactos de práticas abusivas no setor financeiro
Nas últimas décadas, a globalização, a aceleração tecnológica e a competitividade alteraram profundamente o mundo do trabalho, tornando o sofrimento psíquico um tema central. A Organização Mundial da Saúde identificou os transtornos mentais como uma das principais causas de afastamento laboral, e observatórios brasileiros registram crescimento dos afastamentos por transtornos mentais.
Esse adoecimento está ligado a fatores como assédio moral, precarização das relações laborais, metas abusivas e fenômenos como a uberização, que intensificam a pressão por resultados e minam a autonomia dos trabalhadores. Esses fatores degradam o ambiente de trabalho e violam a dignidade humana. A Constituição Federal de 1988 afirma que a saúde é um direito social e estabelece a redução dos riscos no trabalho. Normas regulamentadoras, como a NR?17, buscam adequar as condições de trabalho às características psicofisiológicas e reduzir fatores de estresse.
A jurisprudência trabalhista tem sido decisiva para proteger a saúde mental dos trabalhadores. O Tribunal Superior do Trabalho reconhece que a prática reiterada de humilhação, constrangimento e cobranças desmedidas configura violação grave à saúde mental e justifica indenizações por danos morais. Em caso paradigmático, o TST condenou uma instituição financeira por submeter seus empregados a metas abusivas e exposição pública de resultados, resultando em quadros de ansiedade e depressão. Esse precedente evidencia que modelos de gestão voltados exclusivamente para o lucro não podem se sobrepor à dignidade do trabalhador.
Quando se examina a realidade dos bancários, a gravidade do problema se torna evidente. Embora representem apenas cerca de 1 % dos trabalhadores com carteira assinada, os bancários respondem por 24 % dos afastamentos por doenças mentais. Dados do Sindicato dos Bancários de São Paulo mostram que, entre 2022 e 2024, os afastamentos por transtornos mentais no país cresceram 135 %; no setor bancário, esses afastamentos dobraram, passando de 7.264 para 14.565 casos. Em 2024, 52,9 % dos afastamentos de bancários foram motivados por transtornos mentais.
A pressão por resultados, a ameaça constante de demissões e a exposição pública de desempenho são elementos centrais do modelo de gestão nas instituições financeiras. Representantes da categoria denunciaram em audiência pública no Senado que, além das metas abusivas, os bancários convivem com medo de assaltos e discriminação; as empresas do setor ignoram o adoecimento e subnotificam casos de doenças mentais. A situação das mulheres é ainda mais crítica: elas são mais suscetíveis ao assédio moral e sexual e enfrentam dificuldades adicionais para manter a saúde mental.
A predominância de transtornos psicológicos também é corroborada pela Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa (Fenae), que aponta que 83 % dos afastamentos médicos de bancários têm origem emocional (depressão, ansiedade, burnout e síndrome do pânico). Esse quadro demonstra que o ambiente bancário, caracterizado por metas inatingíveis e controle rígido, favorece o desenvolvimento de transtornos graves e compromete a produtividade.
Frente a essa realidade, a proteção jurídica não se limita à legislação. A jurisprudência trabalhista consolidou a responsabilização das empresas por assédio moral e metas abusivas; o TST reconhece o direito à estabilidade provisória e a benefícios previdenciários em casos de síndrome de burnout, reforçando que a saúde mental é parte integral da saúde ocupacional. O Supremo Tribunal Federal afirma que a dignidade da pessoa humana é cláusula pétrea, não podendo ser relativizada em nome do lucro.
Para enfrentar o adoecimento mental no setor bancário, os especialistas sugerem uma combinação de políticas públicas e ações empresariais. Programas de qualidade de vida no trabalho que envolvam pausas adequadas, limitação de metas e reconhecimento de desempenho têm se mostrado eficazes para reduzir o estresse. Canais de denúncia acessíveis e seguros são essenciais para combater o assédio moral e garantir a responsabilização de gestores abusivos. A nova Norma Regulamentadora nº 1, que obriga empresas a identificarem e gerirem riscos psicossociais, precisa ser implementada com a participação de sindicatos, CIPAs e trabalhadores.
Treinamentos para lideranças também são fundamentais para criar uma cultura organizacional que valorize a dignidade humana e reconheça o trabalhador como sujeito integral. Sem a atuação ativa dos sindicatos, entretanto, os avanços podem ser limitados; eles têm papel crucial na vigilância de dados de adoecimento, na conscientização da categoria e na negociação de acordos que contemplem a saúde mental.
Em síntese, a saúde mental do trabalhador é um direito fundamental e deve ser prioridade nos ambientes de trabalho. A situação dos bancários ilustra como metas abusivas, assédio moral e precarização podem adoecer coletivos inteiros, exigindo respostas jurídicas e institucionais. Proteger a saúde mental não é apenas uma questão de justiça social, mas uma estratégia essencial para a sustentabilidade econômica e para a construção de ambientes laborais mais humanos.
Autora: Simone Fernandes de Almeida* Assistente Social
