Sobre bancários, discriminação e amor
A análise do sociólogo Martvs das Chagas sobre a população negra frente à sociedade e ao mercado de trabalho
O debate sobre as iniquidades raciais no Brasil ganhou força e visibilidade na última década, permitindo ao país resgatar uma parte trágica de nossa história (a escravidão e suas mazelas) onde muitos propõem somente esquecer, ou deixar pra lá, reafirmando o mito da democracia racial. A falácia dessa democracia pressupõe que sejamos todos iguais e assim sendo só não conseguem ter bons empregos, boa educação, oportunidades e acesso ao poder aqueles que não querem, por preguiça ou falta de ambição.
Deixam de levar em consideração as condições sub-humanas e o trato desumano a que eram submetidos os africanos escravizados no Brasil. E que isso terá reflexo ainda por muito tempo nas gerações futuras. Principalmente pelo fato de após a abolição não ter sido criado nenhum programa de inclusão ou reparação aos séculos de trabalho forçado e não remunerado a que eram submetidos.
A recusa do estado brasileiro, historicamente comandando pelas elites e pela classe patronal, em buscar corrigir essas distorções, faz com que o Brasil ainda seja o campeão da desigualdade sócio-econômico-racial em que pese os esforços empreendidos pelo movimento social e principalmente pelo governo federal nos últimos anos.
Para termos uma ideia da perversidade do legado acima citado, o mercado financeiro é um dos maiores reprodutores de desigualdades quando nos referimos a negros e brancos. No setor bancário, o II Censo da Diversidade mostrou que somente 24,7% dos trabalhadores nos bancos brasileiros são negros. Desse total, apenas 3,4% se declararam pretos. A maioria se identificou como parda. O fosso é aparente se levarmos em consideração que a população negra (pretos + pardos) representa 53% da população brasileira (Pnad, 2014).
As pessoas que desconsideram ser preciso tratamento diferenciado para corrigir as distorções raciais existentes apelam para o simplismo que precisamos é ter educação e saúde para todos (mas não dizem quando) para resolver o problema. Se assim for, alegam, corrigiremos as assimetrias existentes nos dias de hoje.
Estudos do IPEA projetam que se as políticas públicas governamentais e privadas continuarem no mesmo patamar atual, a renda entre o que ganha a população negra no setor bancário, será igualada ao que recebe a população branca somente daqui a três décadas, ou seja, 32 anos mais de espera.
Ainda segundo o II censo da diversidade, nos bancos o salário do negro é 27% menor do que o do trabalhador branco. Os bancários negros não têm o mesmo acesso aos cargos mais remunerados das chefias.
Essa diferenciação no espaço de trabalho acaba por criar situações em os integrantes da própria categoria venham a desenvolver de forma velada, como na sociedade, preconceitos, discriminações e racismo contra os trabalhadores negros. Mesmo pessoas que se dizem sensíveis com a causa da igualdade, acabam por cometerem atos de preconceito e discriminação passiva ao verem colegas de trabalho serem preteridos (as) para um posto mais elevado dentro do banco simplesmente por sua condição racial, uma vez que competência e experiência não lhes faltam.
Em 2005, organizações sindicais e do movimento negro se mobilizaram e denunciaram ao Ministério Público a ausência de funcionários negros nas instituições bancárias. A Febraban foi notificada e anos depois contratou uma consultoria, donde resultou um Programa de Valorização da Diversidade constituído de 05 eixos. Dentre eles, destacamos: “ Busca e estabelecimento de convênios técnicos com programas oficiais, como o ProUni, universidade com cotas e com ações afirmativas, para acelerar a inclusão no mercado de trabalho bancário de jovens oriundos de grupos sociais vulneráveis”.
O reconhecimento da FEBRABAN, depois na notificação do Ministério Público, que existem diferenças raciais que obstam a progressão funcional e mantém desníveis salariais dentro das agências bancárias, nos alerta para que seja ampliada a cobrança de resultados sobre ações que a própria entidade patronal propôs.
Do outro lado, o movimento sindical tem o papel de reforçar, ainda mais, em suas lutas cotidianas, em suas pautas de reivindicações e nas convenções coletivas a defesa intransigente da promoção da igualdade racial, bem como realizar ações periódicas que permitam a categoria refletir sobre o modelo de país que queremos construir para o futuro. Se includente ou excludente.
Para construção desse futuro, fiquemos com os ensinamentos de Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”.
Martvs das Chagas é sociólogo e consultor em gestão social