Crise tica no Banco do Brasil
Diretora e bancria do BB Arcngela Salles analisa momento problemtico vivido por bancrios da instituio
O Banco do Brasil tem se destacando como agente de políticas públicas no combate aos efeitos da crise internacional. Junto com a Caixa Econômica Federal, demonstrou que os bancos públicos podem ser instrumentos de uma política ágil e eficiente na redução de juros e no fomento das atividades produtivas, destacando-se, por exemplo, pelo volume de crédito para produção de alimentos da ordem de 55 bilhões para a safra 2012/2013.
Infelizmente, a atual administração vem ferindo gravemente a ética tanto no relacionamento com funcionários quanto no relacionamento com clientes. Precisamos reagir!
Infelizmente, a atual administração vem ferindo gravemente a ética tanto no relacionamento com funcionários quanto no relacionamento com clientes. Precisamos reagir!
Quando se trata da relação com funcionários, as notícias mancham a imagem de um patrimônio da nação brasileira com dois séculos de existência. Contra evidências, não há argumentos. O Banco do Brasil tem feito do assédio moral uma ferramenta de gestão nas unidades do banco. Essa é a avaliação do Tribunal Regional de Brasília que condenou o banco a pagar indenização de R$600 mil por danos morais coletivos. Para cumprir metas absurdas, que se multiplicam por três, quatro e até cinco vezes a meta do semestre anterior, o Banco do Brasil vem usando deste expediente para burlar as instruções e desrespeitar funcionários. A pressão sobre os funcionários é intensa, seja pessoalmente, seja através de mensagens pelo celular pessoal várias vezes ao dia. Nas reuniões diárias, a competência é questionada e a postura gerencial outrora tão valorizada deixou de existir na maioria das agências.
Condenações também existem por descumprimento com os horários de descanso e de trabalho dos seus funcionários (processo 005086-72.2008.5.10.0007 RO) no valor de 500 mil reais.
Se quisermos fazer o mapa do assédio, veremos que a postura de desrespeito é institucional, pois acontece em todos os estados da federação. Denúncias de coação contra funcionários foram registrados no Ministério Público do Trabalho do Pará, em 18/07/11, para forçá-los a desistirem das ações na qual pedem o pagamento da 7ª e 8ª horas.
No Ceará, a pesquisa realizada pela Professora Regina Maciel, da Universidade Estadual do Ceará (UECE) apontou que mais de 40% dos funcionários relatam humilhações pelo menos uma vez por semana. O sindicato do Ceará realizou ato público para protestar contra a ameaça de descomissionamento feita pelo superintendente estadual, Luís Moscardi, utilizando justificativa de conduta, ou seja, punição pelo não cumprimento de metas. A Superintendência Estadual do BB no estado exigiu a assinatura de termo de compromisso como instrumento de coação, procedimento não previsto nas instruções do banco.
Pernambuco, também registrou casos de assédio denunciados para a Ouvidoria do BB. O sindicato realizou ato público com o mote “O Banco do Brasil é uma máquina de moer gente”.
A Procuradoria do estado do Distrito Federal alega que, desde 2008, tenta firmar um acordo para que o banco crie uma comissão para apuração interna dos casos de assédio moral. Também de Brasília vem a denúncia feita pela ex-gerente da Ouvidoria Interna, Vânia Venâncio, que relatou em carta ao conselho de administração do banco, à Ouvidoria Geral da União e ao sindicato dos Bancários de Brasília que ‘a localização da Ouvidoria Interna no quinto escalão da arquitetura organizacional traz dificuldades previsíveis de cunho político-institucional. Como uma gerente de divisão vai conduzir denúncias de superintendentes, gerentes executivos, diretores e demais funções estratégicas”.(Correio Braziliense – 22/07/10).
Denúncias também foram protocoladas no Ministério Público do Trabalho/ RS. Podemos citar inúmeras denúncias e toda familiares a todos os funcionários do país, independente do local de trabalho.
Em Minas Gerais, o assédio predomina, pois a superintendência tem a maior rede de agências no país, depois da Diretoria de Distribuição São Paulo, e o sexto resultado. Na SUREG/ Juiz de Fora, o desempenho do superintendente 2010/2011 era de extrema agressividade e expressões como “tem que entregar a encomenda e tem que fazer o que tiver que fazer, aqui não tem freirinha” eram conhecidas de todos. O sindicato realizou ato público e publicou boletim especial para denunciar os abusos. As consequências dos atos de assédio moral, um ano depois, foi o descomissionamento de 23 funcionários entre gerentes gerais e analistas, alguns com 29 anos de carreira. A apuração de denúncias feitas pela Auditoria constatou o compartilhamento de senhas para rodar o robozinho de tarifa, para dar um upgrade no resultado. Puniu-se o efeito, mas não a causa. Com certeza, os gerentes sabiam do risco, mas numa instituição em que a política do vale-tudo para cumprir as metas se instalou desde 2007 é difícil saber o que é justo. O BB permitiu que a ética fosse “flexibilizada” criou a ideia de que tudo podia ser feito, desde que entregassem as metas ou “encomenda”. Quem contrariou a política do vale-tudo do superintendente, sofreu retaliações.
E agora, onde trabalhamos? Na instituição ideal (AUDIT) com respeito às instruções e aos princípios éticos ou no BB real, do vale-tudo. É complicado para quem aprendeu a amar sua empresa, entender que a relação de dedicação restringe-se a um CNPJ e uma matrícula.
Resta saber: a quem interessa esse desmanche da imagem e credibilidade do BB? Aos eternos amantes da privatização? Devemos sempre lembrar que o governo FHC, na carta de intenções ao FMI de 1998, assumiu o compromisso de privatizar o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o BNDES ou transformá-los em bancos de segunda linha. Será que ainda há neo-liberalistas de plantão acalentando esse desejo? Os tempos são outros, mas é preciso cautela. A Caixa está mais resguardada, pois há na Caixa um sentimento de defesa da empresa e dos seus companheiros. Relatos emocionantes feitos por Jair Pedro da FENAE e a deputada Érika KoKay nos dá a dimensão do engajamento dos funcionários na defesa da empresa e dos seus empregos de forma digna e determinada. Quando houve a demissão de 110 funcionários na greve de 1990, no início da política liberal de Collor, eles se juntaram e com um percentual de seus salários pagaram os salários e plano de saúde dos demitidos até a reintegração de todos. No nosso caso, quando houve o PDV de 1995, houve funcionário do BB que deu graças a Deus por estar fora da lista dos elegíveis. Os outros? Os outros são os outros.
As denúncias feitas na Ouvidoria BB e que serão feitas na ALMG em audiência pública no dia 17/07/12 são oportunidades de combate ao assédio moral aos funcionários e ao desrespeito ao consumidor. Oportunidade para reavaliar as práticas nocivas e lutar por um emprego com condições dignas de trabalho, de restabelecer o vínculo de respeito BB/funcionário. O ex-gerente geral, obrigado a se aposentar antes de completar 30 anos de serviço no BB, levou à Ouvidoria o relato dos fatos e demonstrou, acima de tudo, dedicação à empresa e a crença de que o Banco do Brasil é muito maior que o desvario de alguns dirigentes. Nossa admiração ao companheiro que ousou se indispor contra a atual administração do BB, que vem desde 2007, desestruturando o Banco do Brasil. A centralização de serviços nas capitais descontruiu um conhecimento que estava presente em todas as agências. E a criação de PSOs (plataformas de serviços) para os caixas que trabalham na agência, mas que pertencem a outro prefixo, marginalizou os funcionários e pode ser uma preparação para a terceirização, caso o Projeto de Lei 4330 for vitorioso. Os discípulos de Maquiavel são hábeis.
É tempo de nos engajarmos numa campanha na defesa dos bancos públicos voltados para o povo brasileiro, pelo fim do assédio moral aos funcionários, pelo fim da terceirização, pela regulamentação do sistema financeiro nos moldes descritos no caput do artigo 192, com todos os bancos servindo aos interesses da sociedade.
Precisamos reagir! O apoio dos bancários à candidatura da Presidenta Dilma foi incondicional e nosso apoio ainda é integral, mas precisamos de respostas do governo brasileiro que é o maior acionista do banco e de providências que restaurem a ética no Banco do Brasil.
Arcângela Salles é diretora do Sintraf JF e bancária do Banco do Brasil
Arcângela Salles é diretora do Sintraf JF e bancária do Banco do Brasil