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Imprensa e Notícias

V Fórum pela Visibilidade Negra no Sistema Financeiro

SINTRAF JF e dirigentes sindicais de todo o Brasil debateram a construção da igualdade racial

Dirigentes sindicais de todo o Brasil participaram nos dias 28 e 29 de novembro (quinta e sexta-feira), em Belo Horizonte, do V Fórum pela Visibilidade Negra no Sistema Financeiro.  A atividade objetivou a promoção e ampliação do conhecimento sobre a temática racial nas suas várias dimensões – com foco na formação das lideranças. Ao todo 49 dirigentes sindicais de todo o país participam do Fórum. Do SINTRAF JF, o presidente do SINTRAF JF, Watoira Antônio, e os diretores do SINTRAF JF, João Hilário Neto, Joyce Delgado, Lívia Terra, Luziano Ribeiro, Robson Marques e Taiomara Neto de Paula representam a entidade.

Durante a mesa de abertura do evento o secretário de Combate ao Racismo da Contraf-CUT, Almir Aguiar, reforçou a importância da identificação da presença de bancários negros e mulheres no Sistema Financeiro. “A discriminação é abominável, principalmente quando ela se da em função da cor da pele. Esse debate deve ser feito todos os dias. Por isso é importante a formação de nossos dirigentes. Precisamos todos os dias retrucar e rebater. Não podemos ficar na defensiva. A luta pelo preconceito não vai se dar apenas pelo diálogo”.

A presidenta da Fetrafi-MG, Magaly Fagundes, afirmou que é uma grande honra para o estado de Minas Gerais sediar a atividade. Ela lembrou que mesmo com as conquistas asseguradas durante os governos do ex-presidente Lula e da ex-presidenta Dilma, as oportunidades para homens e mulheres negras ainda é pequena.  “As lutas que temos para travar são diárias. Os ataques aos negros e às mulheres estão cada vez mais brutais. Temos que fazer o debate sobre o baixíssimo índice de contratação de negros e negras nos bancos – que só não é menor em função dos concursos públicos”, afirmou.

  • Construindo Igualdade

Os debates foram iniciados com a Análise de Conjuntura Histórica das Relações de Trabalho Raciais no Brasil e Participação de Negros e Negras no Mercado de Trabalho.

O professor Ramatis Jacino, abordou o Resgate do Trabalho Escravo, desde o sequestro dos irmãos negros na África até o fim do século XIX. Ele falou sobre a importância do Continente Africano no processo de construção da civilização. O professor tratou o sequestro dos africanos pelos europeus foi motivado pelo amplo conhecimento científico e tecnológico que as nações africanas possuíam nas mais diversas áreas como na agricultura, na matemática avançada, na física, na movimentação dos ventos, na astronomia, no desenvolvimento da tecnologia do ferro, na mineração, na fundição e na joalheria, na farmacologia e na saúde física e mental.

“A escravidão é um momento importante e trágico na história da humanidade e na história dos negros em particular. Mas nossa história não se resume à escravidão. A contribuição que o povo africano deu para a civilização, para a economia, para o desenvolvimento científico e tecnológico é muito grande”, explicou.

Ramatis lembrou que tais contribuições foram apropriadas pelos europeus e pelos americanos, e transformadas em riquezas extraordinárias – utilizadas, posteriormente, como instrumento de manutenção do saque ao povo. “O Continente Africano foi saqueado nas suas riquezas minerais, teve as suas nações invadidas, e foi roubado naquilo que é mais importante para qualquer Nação: o seu povo. As pessoas foram sequestradas e trazidas para o Brasil”.

Ele reforçou ainda como os africanos, ao longo de todo o período de escravidão, foram passando de geração em geração seu conhecimento – o que garantiu a sobrevivência dos ex-escravizados. “Esse legado garantiu a sobrevivência do povo e impediu o desaparecimento da população negra que, aliás, era o projeto das classes dominantes”, concluiu.

  • Censo da Diversidade

A economista e técnica do Dieese, Vivian Machado, realizou a “Análise dos dados do Censo da Diversidade-Fenaban 2014 e as perspectivas do Censo de 2019”. Ela apresentou os dados de distribuição da população negra e branca em 2010 e os principais resultados do Censo da Febraban (2008 e 2014). “Esses dados mostram como é grande a diferença salarial entre negros e brancos e, principalmente, entre as mulheres negras e os homens brancos – muito maior e preocupante em todas as regiões”.

Vivian explicou que a perspectiva é de que o Censo de 2019, além de um levantamento estatístico da atual composição da categoria bancária, traga também formação e possibilite a ampliação da luta contra a discriminação e do preconceito que existe dentro do sistema financeiro. “Quando apresentamos a realidade dos dados, constatamos que, no dia a dia, as pessoas ainda não estão conscientizadas da gravidade da situação e possam ter ações afirmativas e positivas no sentido de trazer os bancários para a luta contra a discriminação”.

  • Mercado de Trabalho

O professor da Universidade de Brasília (UNB) Mário Theodoro abordou a “As políticas públicas e as desigualdades raciais no mercado de trabalho”. O docente explicou que mercado de trabalho que, muitas vezes, é visto como o local onde as pessoas vão para sobreviver e se desenvolver no caso de sociedades desiguais, gera mais desigualdades – na medida em que ele potencializa para os que têm mais privilégios e tira as condições quem tem menos.

“A história de como o mercado de trabalho no Brasil se tornou desigual tem a ver com um cenário de desigualdade que não era ainda um mercado de trabalho, mas sim de escravismo. Mas que quando passa a ser trabalho livre é caracterizado por duas políticas; a lei de terras que retira a posse das terras dos negros que trabalhavam nelas e a política de migração que faz com que uma grande população europeia venha para o Brasil e tome o lugar dos negros em algumas áreas centrais”.

“O que acontece é que há uma dupla exclusão seja no mercado de trabalho, seja no mercado das terras que faz com que nós tenhamos hoje uma horda de pessoas sem emprego e sem terras que continua sendo o grande problema do Brasil. E essas pessoas na sua maioria têm cor. Por trás de todo esse problema está a questão do racismo que faz com que as portas para a população negra sejam fechadas”. Mário completa afirmando que uma sociedade melhor é uma sociedade sem privilégios. “Para ter uma sociedade mais igual é necessário mexer com os privilégios”.

  • Direito à vida

O sociólogo Martvs das Chagas iniciou questionando o público presente se eles acreditavam na existência do racismo no Brasil e receber uma resposta positiva de toda a plateia, o sociólogo perguntou se algum dos presentes se considerava racista.

“O Brasil é um país doente de uma moléstia chamada racismo. Se não procuramos, além de diagnosticar essa doença, criar mecanismos para curá-la vamos continuar durante muito e muito tempo essa sociedade desigual que nós temos hoje. Faço essa provocação no sentido de alertar as pessoas também para a dificuldade que é lutar contra o racismo no Brasil. Como é que você luta contra aquilo que é invisível? Como lutar contra o que não aparenta?”, questionou.

Segundo o sociólogo, antes de conquistar quaisquer outros direitos a população negra precisa conquistar o direito à vida. A cada dia, o número de jovens de 15 a 24 anos assassinados é maior. “A população negra tem que ter o direito à vida, para depois ter o direito à educação, à saúde, ao mercado de trabalho, etc. Essa população se vê sub-representada nos organismos de promoção da cidadania, principalmente, na política”.

“É muito importante que os companheiros que fazem parte desses fóruns possam promover mudanças também nos seus sindicatos, nos seus locais de trabalhos. Os debates de hoje foram para qualificar um pouco que população negra é essa que não está tendo direito à vida, e que essa representação política é necessária, mas só se dará quando todos se envolverem”, finalizou.

  • Violência contra as mulheres negras

Para a doutora Ângela Gomes é preciso que o Brasil retome que a vida no país só é possível graças ao legado trazido pelas mulheres negras em áreas estratégicas como a medicina, a agricultura ecológica, e a tecnologia.

“Todo esse conhecimento que tem sido ocultado, tem colocado as mulheres no patamar de objetos ou de em mulheres que não são colocadas como pessoas com direitos de ir e vir. O que temos visto é que a política tem que ser focal. As políticas afirmativas são necessárias porque enquanto vemos que a Lei Maria da Penha conseguiu reduzir o feminicídio de mulheres brancas, aumentou em 54% o de mulheres negras”.

“A violência doméstica à qual são submetidas as mulheres negras é moral, mas é também do trabalho, e é colonial à medida que há uma naturalização de colocar as mulheres negras como objeto de consumo ou de prostituição”, concluiu.

  • Moção de repúdio contra as declarações do atual presidente da Fundação Palmares

Nós delegadas e delegados do V Fórum Nacional Pela Visibilidade Negra no Sistema Financeiro, em Defesa da Fundação Cultural Palmares e na Luta contra o Racismo, repudiamos as declarações públicas do Sr Sérgio Camargo, recém nomeado para a presidência da Fundação Cultural Palmares estão em total desacordo com os objetivos estabelecidos na lei federal que a criou. Portanto, além dos graves equívocos, é também de conteúdo profundamente ilegal.

O Brasil é signatário das declarações oriundas da Conferência Internacional de Durban, contra o racismo que dispõe:

““Reconhecemos que a escravidão e o tráfico escravo, incluindo o tráfico de escravos transatlântico, foram tragédias terríveis na história da humanidade, não apenas por sua barbárie abominável, mas também em termos de sua magnitude, natureza de organização e, especialmente, pela negação da essência das vítimas; ainda reconhecemos que a escravidão e o tráfico escravo são crimes contra a humanidade e assim devem sempre ser considerados, especialmente o tráfico de escravos transatlântico, estando entre as maiores manifestações e fontes de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata; e que os Africanos e afrodescendentes, Asiáticos e povos de origem asiática, bem como os povos indígenas foram e continuam a ser vítimas destes atos e de suas conseqüências;” 

A Fundação Palmares, é uma instituição do Estado brasileiro e não um biombo para servir a interesses contrários aos objetivos para os quais ela foi criada. Neste sentido, expressamos nossa preocupação com o fato de que, além do racismo estar ganhando terreno no Brasil, as formas e manifestações contemporâneas do racismo, da intolerância e do fascismo, estão se empenhando para recuperar o reconhecimento político, moral e, até mesmo, legal das mais variadas maneiras, inclusive, por meio de plataformas de partidos políticos e organizações que tem disseminado o ódio, a violência e a negação dos direitos mais elementares do nosso povo.

Portanto, se houver um lampejo de honra e dignidade nesse senhor que tem ideário completamente oposto a razão da existência da Fundação Cultural Palmares, que ele se exonere, por total incompatibilidade com os objetivos da Fundação.

Concluímos com uma fala de Tomás Sankara, líder Africano:
“um escravo que não é capaz de assumir sua revolta não merece nossa piedade; esse escravo responderá sozinho por seu infortúnio, se forma ilusões sobre a condescendência suspeita de um mestre que finge emancipá-lo. Só a luta liberta”.

  • Carta Compromisso do V Fórum Nacional pela Visibilidade Negra no Sistema Financeiro

Durante dois dias, bancários de todo o país reuniram-se em Belo Horizonte, Minas Gerais, no V Fórum Nacional pela Visibilidade Negra no Sistema Financeiro para reafirmar o compromisso de promover permanentemente a igualdade, independente do sexo, da raça/cor, da orientação sexual, da identidade de gênero e de pessoas com deficiência.

O evento também debateu maneiras de nosso movimento sindical enfrentar e combater todas as práticas discriminatórias, entendendo que estas favorecem principalmente aqueles que, hegemonicamente, detém o capital, a fim de concentrar riquezas.

Reafirmamos que lutamos por uma sociedade democrática, fraterna e igualitária, sem trabalhadores de segunda e/ou terceira classe. E, temos certeza, que isso só será possível ser alcançado se houver igualdade de oportunidades para todos exercerem, de fato, a cidadania.

Na questão da discriminação racial, é relevante que precisamos avançar na questão da visibilidade negra na sociedade e também no sistema financeiro, lutando por uma participação maior neste setor, que emprega apenas 24,7% de bancários negros/as, frente aos 54% de negros/as da sociedade brasileira.

Reafirmamos também que os nossos sindicatos têm um papel fundamental nessa construção, por serem ferramentas de luta dos trabalhadores e das trabalhadoras, por fazerem a ação direta da denúncia, por terem a possibilidade de formar e informar seus representados, e por terem a prerrogativa de negociar políticas afirmativas necessárias para superar as desigualdades.

Nesse sentido, para fazer respeitar os avanços conquistados com muita luta pelo movimento sindical e social do país, nós, participantes do V Fórum Nacional pela Visibilidade Negra no Sistema Financeiro, reforçamos, orientamos e assumimos o compromisso com as seguintes propostas:

  • Realizar formação com a temática racial junto com a Secretaria de Formação Sindical da Contraf-CUT;
  • Realizar atos e manifestações em todas as datas comemorativas pertinentes à questão racial, com slogan “Vamos abolir a discriminação e promover a inclusão, por mais contratação de negros e negras nos bancos”;
  • Realizar “Dia Internacional de Luta contra a Discriminação Racial”, sempre trabalhando o tema da ausência de negros e negras no sistema financeiro;
  • Fortalecer a criação dos Coletivos de Combate ao Racismo nas Federações e Sindicatos;
  • Ampliar e estreitar parcerias, estabelecer alianças com o movimento negro e outros movimentos que debatem a temática racial;
  • Acompanhar a inserção da população negra nos locais de trabalho, tanto na admissão como na carreira, e nas instâncias do movimento sindical através de pesquisa ou outras formas de monitoramento;
  • Criar pautas do Coletivo Nacional de Combate ao Racismo, e encaminhar as propostas aprovada no V Fórum Nacional pela Visibilidade Negra no Sistema Financeiro, para a Conferência Nacional do Bancários debater, e incluí-las na MINUTA DA PAUTA DE REIVINDICAÇÕES DA CATEGORIA BANCÁRIA 2020, com desdobramento na mesa temática de igualdade de oportunidades;
  • Reivindicar do Comando Nacional dos Bancários, um painel com apresentação do tema de Combate ao Racismo na próxima Conferência Nacional dos Bancários (2020);
  • Propor audiências públicas junto aos parlamentares sobre a temática racial e, consequentemente sobre as situações que favorecem a discriminação no trabalho e na vida;
  • Estabelecer e estreitar nossa articulação com a agenda das centrais;
  • Promover qualificação profissional, nos termos das certificações, focada na população negra;
  • Desenvolver campanhas pela efetivação das Convenções 100 e 111 da OIT;
  • Combater, enfrentar e eliminar o racismo institucional que produz e reproduz a falta de acesso, o ingresso ao trabalho precarizado e a perpetuação das desigualdades sociais;
  • Defender o princípio das ações afirmativas na sua totalidade, superando a desinformação e sua redução a políticas de cotas;
  • Cobrar da União, Estados e Municípios uma postura proativa na promoção da igualdade racial e da igualdade de oportunidades e tratamento;
  • Denunciar e cobrar ações do Estado para eliminar as elevadas taxas de letalidade da juventude negra;
  • Realizar o Fórum Nacional pela Visibilidade Negra no Sistema Financeiro anualmente e de forma itinerante;
  • Encaminhar documento à Presidência da República, solicitando decreto de feriado nacional, no aniversário de Zumbi de Palmares – 20 de novembro (Dia Nacional da Consciência Negra);
  • Publicar nota de repúdio aos atos de intolerância religiosa no Brasil

Belo Horizonte, 29 de novembro de 2019

 

Fonte: Fetrafi-MG - Por Mariana Viel

Fotos: Diretores SINTRAF JF