Sindicato do Bancários Zona da Mata e Sul de Minas - SINTRAF JF
Facebook e Instagram Facebook dos Bancários Instagram dos Bancários
Opinião e Artigos

Choque de gestão!

Na coluna Saúde e Condições de Trabalho bancários destaca as dificuldades impostas àqueles que retornam ao banco

As dificuldades impostas àqueles que retornam ao banco

O adoecimento bancário tem crescido em grande proporção e medidas precisam ser tomadas com urgência, para que sejam evitados tantos danos a trabalhadores. Danos causados pelo próprio empregador, por falhas de gestão, que acarretam consequências desastrosas na vida do ser humano. 

De acordo com a última estatística divulgada pelo INSS, entre janeiro e março do ano passado, 4.423 bancários foram afastados do trabalho, sendo 26,1% por doenças como depressão, estresse e síndrome do pânico.  Além disso, o número real de bancários doentes também está defasado, em razão das mudanças da Previdência na divulgação de pesquisas.

Percebendo o grande número de casos de bancários (as) afastados (as) do trabalho e das dificuldades enfrentadas por aqueles que conseguem retornar para suas funções, o Sintraf JF, através da sua Secretaria de Saúde e do Serviço Social, conversou com um funcionário do Bradesco, adoecido, reintegrado e que enfrenta grandes dificuldades no retorno ao trabalho, por rejeição do seu gestor (Gerente Regional).

Com 30 anos de banco, todos eles dedicados ao Bradesco, o bancário, que começou seu tratamento no início de 2013, foi demitido e reintegrado e se disponibilizou a descrever o circo dos horrores que acontece no Bradesco “colocando você sempre à frente”. Que não difere dos casos em outros bancos.

“Eu comecei cedo no banco. Era um menino. Tinha meus objetivos e anseios dentro da organização. Sempre me encheram de projetos e promessas que não foram acontecendo. Eu era gerente de uma agência pequena e ao sair de lá ela já estava de grande porte. A cobrança foi aumentando a cada dia e quando a agência estava em posição de destaque a situação foi piorando. Os gerentes da região eram cobrados a fazer 70% dos resultados da gerência regional e quando não acontecia deviam explicar o porquê. Um a um. Explicando dentro de uma sala. Um dia me pediram para que eu falasse o que estava acontecendo. Hesitei e então disse que o G10 [que significa as 10 maiores agências da gerencia regional] – ‘que é colocado como um grupo tão fantástico, magnífico’ - não estava funcionando; estavam 10 gerentes obrigados a fazer 70% da gerencia regional. E esses estavam adoecendo, pois não davam conta dessa meta abusiva”, relatou o bancário.

Ao perceber que estava adoecendo, o bancário procurou um médico e hoje faz uso de remédio de pressão, além de psiquiátricos. Este é seu único e primeiro emprego, mas mesmo indo, tinha receio do trabalho, pois todo dia era um medo diferente. Após retornar das férias e trabalhar por poucos dias, o banco tentou desligar o funcionário do Bradesco com a justificativa de baixa performance. Mas que performance? A agência estava bem. Crescendo! O bancário não assinou o desligamento e foi reintegrado em maio de 2014.

“No início do adoecimento pensei até em suicídio, mas consegui encontrar apoio, consegui a reintegração, permaneci de licença - período que não recebi salário por 3 a 5 meses, que não foram pagos até hoje. Sem apoio nenhum do banco. Momentos de grande dificuldade. Que ainda enfrento, junto com muitos colegas que passam pelo mesmo problema do retorno às atividades”, destaca.

O problemático retorno

Para o bancário que sofre com o retorno ao banco ao qual dedicou todos os seus anos de trabalho, após terminar o período de licença e voltar às atividades, o tratamento dispensado pelos gestores e as condições de trabalho são péssimas.

“O problema começa imediatamente. Fui recebido com total desconfiança pelos cargos de chefia. Após fazer o exame médico, apto, e retornar a agência, me mandaram procurar o gerente regional, onde ele me enrolou, me deixou esperando em uma salinha por cerca de 40 minutos. Quando fui atendido foi com descaso, dizendo que seria rápido, pois tem compromissos e que nós fazíamos com que ele não tivesse tempo, por que todos os dias ele tinha que ir ao Ministério do Trabalho. Então eu falei que não éramos nós, era o banco que estava provocando isso e só queríamos nosso direito. A forma com que ele me atendeu, eu parecia ser um estranho, aquele que nunca dedicou 28 anos no banco, até então”, destaca o bancário reintegrado que conclui que o Banco, em si, é uma excelente instituição. A questão é o modo como é administrado pelos gestores, que não possuem atitudes de tal, e não se cansam de enviar recados através de subordinados.

O bancário tinha esperanças que não acontecesse com ele o que vê acontecendo com outros bancários que voltam à ativa e relata que foi direcionado ao Bradesco Prime (onde foi recebido muito bem pelo gerente e demais funcionários) para força tarefa. No entanto, em aproximadamente uma semana sentado, sem acesso ao terminal, trabalhou durante 4 meses com a rotina totalmente restrita. Passado alguns dias, o banco criou uma carta onde estava desconstituindo o cargo de gerente de agência para gerente comercial 3, quando começa outro problema.

“Um subordinado levou uma carta para eu assinar. Carta essa que já estava pronta e assinada pelo gerente regional. Neguei assinar e minha vida profissional virou um inferno. Não quiseram me dar cópia, sendo que de acordo com o RH eles eram obrigados. Neste dia, eu já estava em tratamento e minha pressão foi a 22, tendo que parar no médico. Eu e o gerente regional nos desentendemos, e foi dito por ele que só entregaria a cópia se tivesse uma autorização por escrito do RH da matriz. Ele, apesar de negar, me disse que a partir desse momento que não assinei a carta me responsabilizava por todos os meus atos. Que toda ação tem uma reação. Uma ameaça clara”.

O bancário ficou por mais alguns dias na agência Prime e depois ele e mais dois, que também adoeceram e voltaram, foram mandados para agência no bairro Benfica, onde também foram bem recebidos pelo gerente e funcionários, e que o bancário relata ser um excelente lugar, mas não possui espaço físico nem estrutura adequada (falta terminal gerencial, móveis e utensílios dignos para trabalhar).

O funcionário ligou para matriz do banco, em São Paulo, e foi informaram que as gerências regionais foram orientadas que, quando os funcionários, de licença ou reintegrados, fossem alocados em agências próximas de onde atuavam ou de casa, para que evite transtornos ou gastos desnecessários. Mas isso não acontece em Juiz de Fora.

“O funcionário que volta fica jogado, sem rotina e não alocados da forma orientada pela matriz. Ainda aguardo o retorno do que será feito a meu respeito, pois a situação não está boa e ainda me é dito que não era pra ser dessa forma... Eu acredito que dispensam esse tratamento para que adoeçamos e saiamos do banco. Parece que nunca fomos funcionários, prestamos serviços e demos resultados”.

Mais uma atrocidade destacada pelo bancário é o constrangimento diário pelo qual esses trabalhadores que retornam são obrigados a passar. “Existe uma agência do banco na cidade em que esses funcionários já foram proibidos de comer o pão na hora do café; isso, claro, informado através de recado. Eles trabalham em uma sala onde outros colegas de trabalho estão apelidando de ‘chorume’. É inaceitável!”.

O banco procura isolar esse trabalhador, não cria um lugar fixo, sendo que o que a pessoa mais precisa quando volta é de um lugar que o conforta.

“Isso é dolorido pra mim. Eu entrei no banco menino, dediquei uma vida para agora ser tratado dessa forma. É um desrespeito ao ser humano!”

As práticas de assédio são mais intensas com essas pessoas que adoecem, que retornam ao banco, pois ele não que ter responsabilidade com trabalhador adoecido. Mas essa maneira do banco gerenciar é errônea e o sindicato trabalha cada vez mais para que atitudes tomadas contra bancários como o personagem dessa matéria sejam extintas.