Interesses convergentes
Uma cena corriqueira em agências do Banco do Brasil é, principalmente em dias ou horários de pico, perceber um enorme descontentamento por parte dos clientes pela demora no atendimento. Os caixas atendem também usuários, mas uma grande parcela daqueles que se utilizam do mais antigo canal de atendimento são clientes que só naquele momento têm contato com a instituição, principalmente nas regiões onde houve grandes compras de folha de pagamento. Me chamam a atenção situações onde aparentes antagonistas na verdade são grandes parceiros, mas, por “cabeça dura” de uma das partes, estão sempre em demanda.
Comecei a situar-me politicamente nos anos de um governo de centro-direita, e tudo que se ouvia dizer, por parte de intelectuais, economistas e políticos partidários daquele governo, é que atender demandas sociais era inviável, ou mais que isso, impossível. Foi necessário um sindicalista de escolaridade tão baixa quanto a minha chegar ao poder para comprovar aos mais elevados currículos do Brasil uma tese que me parecia óbvia: o aumento da massa salarial gera mercado interno.
Tornamo-nos resistentes às crises internacionais. Ora, isso já se sabia desde Keynes, em 1929. Arroxar a classe média era interesse de quais parcelas da sociedade? Não sei. Na verdade, sei. De nenhuma. Mas aquelas pessoas que defendiam tais idéias, também não sabiam que poderiam ser mais prósperas sendo mais “generosas”. (Como se concedessem mais que um direito ao remunerar melhor àqueles que geram as riquezas do país).
Pode haver a percepção de que uma atuação sindical mais incisiva, por parte do trabalhador, seja uma afronta ao seu empregador. Tal percepção, em muitos casos, é lamentavelmente incentivada e difundida, nem tanto pelos próprios empregadores, mas pelos colegas que assumem postura e pensamento de empregador, em vez de tomar parte no grupo ao qual realmente pertencem. Mas a difusão dessa percepção é um desserviço ao cliente, ao funcionário da instituição e ao acionista.
Voltando finalmente ao primeiro parágrafo, e costurando todos os anteriores, quero dizer que os sindicatos hoje, vêm fazendo muito mais pelos empregadores do que deveriam.
Explico: A atuação deste seria basicamente defender os direitos do trabalhador, mas na conjuntura atual os interesses dos trabalhadores, dos clientes e dos acionistas têm sido os mesmos, tendo em vista que defendemos melhores condições de trabalho (ao ponto de uma das reivindicações mais recentes ter sido a contratação de mais funcionários), o que gera uma rotina de convívio mais confortável, ou melhor, menos desconfortável, e que enfim, conforme lutarmos, na forma de diálogo ou de manifestação, um dia trará um ambiente em que poderemos atender os nossos amigos do lado de lá do balcão com toda a presteza e todo o carinho que gostaríamos, tendo um número adequado de colegas ao nosso lado, sendo remunerados de forma mais respeitosa, e enfim, que a nossa relação com aqueles amigos torne-se tão boa, que não nos sintamos mais como leões e cristãos jogados numa arena, e que esse relacionamento construído, na ótica fria dos números e das metas, torne esses amigos mais rentáveis, e o retorno sobre o patrimônio alcance os patamares aos quais realmente pode chegar.
Mas isso, meus amigos, são ideias...
Juvenal Larré
(Se chegaram até aqui, valeu. Abraço)