Fernando Neiva – É claro que o que está em jogo é a disputa de projetos distintos. De um lado a continuidade do projeto democrático popular iniciado pelo governo Lula e de outro a volta do projeto neoliberal, antipopular e privatizante do governo Fernando Henrique Cardoso (FHC).
Daí o caráter plebiscitário dessas eleições que colocam de um lado o que foi o governo de FHC e o que vem sendo o governo do Lula para o Brasil e para os brasileiros. Todos se lembram que durante o governo de FHC o Brasil quebrou duas vezes e adotou taxas de juros de 45% a.a. , gerando o crescimento mais pífio de toda a história do país. Foi ainda na era tucana que a dívida pública saltou de R$ 67 bilhões para cerca de R$ 670 bilhões, ou seja, de 23% para 58% do PIB, mesmo com a brutal elevação da carga tributária de 26% para 35% do PIB. Onde estão os R$ 87 bilhões obtidos com a privatização das 133 empresas entregues a preço de banana no período de 1997 a 2002 ? Os trabalhadores resistiram, mas não conseguiram que a sanha privatista entregasse a CSN, Vale do Rio Doce, e os tradicionais bancos estaduais mineiros Bemge e Credireal, dentre outras.
A política do então presidente FHC tentou impedir a livre organização dos trabalhadores atacou direitos conquistados, flexibilizou o tempo de trabalho com a criação do banco de horas, implementou o trabalho aos domingos e o salário mínimo no valor de 78 dólares era dos menores da história do Brasil. Se não bastasse tudo isso, enviou ao Congresso Nacional o Projeto de Lei N 5483, que alterava drasticamente o art. 618 da CLT.
No que diz respeito aos bancos públicos, o governo FHC promoveu o desmonte das principais instituições financeiras do país, como a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil, o BNB, o Basa e o BNDES e também o que restou do patrimônio público nacional, como a Petrobras e os Correios, preparando-os para a privatização.
Os trabalhadores dessas empresas públicas ficaram oito anos sem qualquer tipo de reajuste salarial. Além disso, os atos autoritários contra os trabalhadores destas instituições eram constantes.
Na Caixa Econômica Federal, a direção do banco instituiu a RH 008, que demitia os trabalhadores sem qualquer motivo. A retirada de direitos era constante, como o décimo terceiro tíquete alimentação, a licença-prêmio, apips, o adicional por tempo de serviço. Além disso, o assédio moral era insuportável. O desrespeito da direção do banco era tanto que em 2001 a pauta de reivindicações teve que ser entregue a um vigilante na portaria da Matriz da Caixa porque os dirigentes da empresa se recusaram a receber os representantes dos empregados.
A perseguição aos trabalhadores também era grave no Banco do Brasil com a implementação de uma política coerciva e demissões sumárias, juntamente com o assédio moral explícito e covarde. Entre 1995 e 2002, foi introduzida uma série de mudanças administrativas drásticas no banco em relação a sua política de Recursos Humanos, o que resultou na demissão de 43 mil bancários durante este período. A pressão foi tão grande que causou uma onda de suicídios de funcionários do Banco do Brasil pelo país. De 1995 a 1996 vinte funcionários do BB se mataram em decorrência da pressão exercida pela política devastadora do governo FHC.
A oposição não quer a comparação com o governo Lula porque sabe que sai perdendo em praticamente todos o itens abordados. No plano interno, o governo Lula promoveu uma das maiores distribuição de rendas do Brasil. O salário mínimo atingiu 210 dólares, foram gerados mais de 11 milhões de empregos formais e 20 milhões de brasileiros saíram da linha de pobreza. O programa Bolsa família atende milhões de brasileiros alimentando o mercado interno e garantindo melhor qualidade de vida à população de baixa renda. As empresas públicas foram valorizadas e fortalecidas na sua função social. O exemplo recente foi o papel exercido pela Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e BNDES durante a crise internacional. E não podemos nos esquecer que foi durante o período do governo Lula que os trabalhadores voltaram a se organizar, com mobilizações históricas, realizando várias greves vitoriosas e ampliando os seus direitos nos acordos coletivos. Além disso, foram criadas 10 novas universidades, 45 extensões universitárias e 214 escolas técnicas.
No plano externo, o governo Lula quitou a dívida com o Fundo Monetário Internacional e as reservas internacionais batem recorde acumulando 160 bilhões de dólares positivos. O país foi projetado internacionalmente como nunca e não é á toa que o presidente Lula hoje é considerado uma das personalidades mais influentes do mundo e sua aprovação chega a números recordes.
Por isso tudo defendo que devemos eleger a candidatura que vai dar continuidade a esse projeto. E não é só isso. Para fortalecer ainda mais o projeto temos que eleger parlamentares federais e estaduais e senadores que sejam capazes de representar os trabalhadores e estejam compromissados em defender os seus interesses no Congresso Nacional.
SINTRAF JF - E como fica o quadro da sucessão em Minas Gerais ?
Fernando Neiva - Minas é um dos principais estados do Brasil em todos os quesitos. Somos o segundo maior colégio eleitoral do Brasil e a eleição nacional passa necessariamente por aqui.
Por enquanto a sucessão mineira ainda não está definida. Temos hoje apenas um candidato assumido que é o governador Anastasia. Na base do governo Lula há ainda uma indefinição se o candidato a governador é Helio Costa (PMDB) ou Fernando Pimentel (PT). Mas independente de quem venha ser o candidato é importante que o eleitor de Minas não seja enganado pelo canto da sereia.
Os sete anos e quatro meses do governo Aécio com a continuidade do Anastasia pode ter construído um Centro Administrativo milionário, um choque de gestão zero, e outros pontos que eles propagandeiam pelos quatro cantos de Minas Gerais, mas por trás de tudo isso está uma gestão que traz a mesma marca do governo Fernando Henrique. Um governo que tem um forte apelo e domínio de toda imprensa mineira. Algum jornal falou mal do governo de Minas ao longo desses anos? Os poucos jornalistas que criticaram o governo foram sumariamente demitidos, como foi o caso do jornalista da rede Bandeirante, Jorge Cajuru.
O governo de Minas não paga a dívida com a União e o déficit cresce a cada ano. Hoje a dívida interna de Minas gira em torno de R$ 55 bilhões. Os ataques ao movimento social e sindical são sua marca. Veja, por exemplo, a justa greve dos professores que há mais de 40 dias estão reivindicando um salário justo, pois hoje o salário dos professores é um dos mais baixos do país: R$369,00. E a irresponsabilidade do governo estadual é tanta, que nessa história só os alunos carentes são atingidos. Cerca de 2,5 milhões de alunos estão atingidos. E o pior não há qualquer diálogo para que essa reivindicação seja atendida. Isso é uma vergonha! O governo mineiro é a verdadeira face do neoliberalismo.
Mudar o governo em Minas Gerais é garantir que as políticas sociais implementadas pelo Governo Lula no país também cheguem de fato a Minas Gerais.
SINTRAF JF - Na atual agenda do Brasil está a luta dos aposentados pelo reajuste maior, o fim do fator previdenciário e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais. Como você avalia esse momento?
Fernando Neiva - Apesar de a nossa categoria bancária possuir uma jornada de trabalho de 30 horas semanais, no Brasil em geral a jornada de trabalho é muita extensa e é uma das maiores do mundo: 44 horas semanais desde 1988. A reivindicação da CUT é de 40 horas semanais porque preserva e cria novos empregos,sendo um dos instrumentos para a geração de novos postos de trabalho e a conseqüente redução das altas taxas de desemprego. Se todos trabalharem um pouco menos, sem redução de salarial, mais pessoas poderão trabalhar.
O governo Lula acertou na valorização do salário mínimo, mas os que estão ganhando acima do salário mínimo devem ter uma política também de valorização de suas aposentadorias. O recente reajuste de 7,7 1 % aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado foi mais do que acertado. Os aposentados devem continuar pressionando por mais essa justa conquista, pois dedicaram boa parte de sua vida trabalhando por um país decente e digno. Agora é o presidente Lula que tem que sancionar.
O fator previdenciário é outra medida perversa que afeta todos os trabalhadores e ele deve ser eliminado. Criado em 1999, pela Lei 9.876/99, no governo Fernando Henrique Cardoso com o objetivo de reduzir os benefícios de quem se aposenta antes das idades mínimas, obrigando o empregado a trabalhar mais tempo, o fator previdenciário leva em conta quatro elementos para o cálculo do benefício: alíquota de contribuição, idade do trabalhador, tempo de contribuição à Previdência Social e expectativa de vida. O fator previdenciário afeta o benefício dos trabalhadores que se aposentam por tempo de contribuição e penalizam especialmente aqueles trabalhadores que começaram a contribuir desde cedo com a Previdência Social. A aposentadoria é calculada levando-se em conta o valor dos 80% maiores salários de contribuição do trabalhador multiplicado pelo fator previdenciário . No caso dos trabalhadores que começaram a contribuir antes de 28 de novembro de 1999, valem os 80% maiores salários desde julho de 1994. A Câmara e Senado já votaram pela sua extinção, agora é a vez do Presidente da República sancionar. Os trabalhadores precisam continuar a pressionar que ele sancione pelo seu fim. O fim do fator resultaria em ganho de cerca de 30% para o trabalhador que se aposentar.
SINTRAF JF - Quais as perspectivas para a Campanha Salarial dos bancários de 2010?
Fernando Neiva - É importante lembrar que os últimos sete anos com as greves cada vez mais organizadas e fortes a categoria conseguiu pressionar os banqueiros e o governo federal trazendo importantes conquistas como: o fim do reajuste zero com aumento real, a cesta alimentação e décima terceira cesta, melhoramos a Participação nos Lucros e resultados com a distribuição maior e mais justa, o auxílio educação, a igualdade de oportunidade, mais segurança dentro das agências bancárias, mais contratações principalmente na Caixa Econômica Federal e no Banco do Brasil e avanços dos direitos dos novos bancários nestes bancos. A participação dos bancários em todos os fóruns, como congressos, encontros e assembleias é fundamental para que organizados possamos garantir e ampliar os nossos acordos coletivos. Mesmo os bancos apresentando altíssimos lucros nada virá de graça. É a nossa organização que irá nortear o que os banqueiros e governo federal apresentarão de propostas para a categoria.